Produtores de Jagged Little Pill reconhecem erro na mudança em construção de personagem

Nesta sexta-feira, a equipe de produtores principais de Jagged Little Pill publicou uma declaração em que reconhece seus erros acerca das mudanças feitas na história de Jo, personagem do musical, e como estes apagaram traços fundamentais de sua criação.

O musical é muito criticado porque, durante sua temporada pré-Broadway em Boston, Jo era canonicamente não-binário, usando pronomes they/them (elu/delu) e em uma jornada para se entender e se descobrir. Porém, ao chegar nos palcos de Nova York, esta parte da história foi apagada e Jo passou a ter os pronomes she/her (ela/dela).

Em diversas oportunidades, tanto os produtores quanto a atriz (cisgênero) que interpreta Jo falaram abertamente que sua jornada nunca foi pensada como alguém não-binário. E isso não fazia sentido com o que havia sido apresentado antes.

Hoje, em longa declaração, a produção do musical se desculpou pelo o que foi feito com e personagem e prometeu melhorar não apenas com palavras, mas também com atitudes. Uma delas foi a contratação de uma nova equipe de dramaturgia (que inclui representação não-binária, transgênero e BIPOC) para rever e aprofundar o roteiro, garantindo que a representação (e representatividade) de Jo não será apagada.

Confira abaixo o texto original e a versão traduzida, na íntegra, pela nossa equipe.

Uma declaração dos produtores principais de Jagged Little Pill

A Broadway está de volta. Ensaios para Jagged Little Pill estão começando e nosso elenco, equipe e toda companhia estão animados e ansiosos.

O último ano e meio foi o mais difícil que nos lembramos – difícil para todo o mundo, e de uma forma específica e existencialmente inquietante para nosso elenco e companhia que foram fechados poucas semanas depois de começarmos. O alívio que sentimos em saber que vamos estar todos juntos de novo é palpável e faz nosso coração explodir.

Mas antes de nos reunirmos, há algumas coisas que precisamos dizer.

Nós queremos reconhecer o razoável e profundo incômodo em torno de questões da transparência e responsabilidade de personagem Jo.

Nós somos gratos por aqueles que falaram sobre este tema, tanto dentro da equipe quanto no nosso público. Devemos a vocês uma resposta em palavras e atitudes. Precisou de um momento para colocar as atitudes em prática, então pedidos desculpas pela demora nas palavras. Reconhecemos a importância do trabalho e decidimos que fazê-lo era mais importante que faz rápido.

Em Jo, nós decidimos mostrar um personagem em uma jornada gênero-expansiva sem um fim certo. Durante o processo criativo, com suas evoluções e mudanças, entre Boston e a Broadway, nós erramos em como lidamos com essa evolução. Em um processo que buscava esclarecer, muitas das falas que mostravam Jo como gênero não-conforme, e com isso, uma parte vital e integral foi removida de sua jornada.

Piorando nosso erro, declaramos publica e categoricamente que Jo nunca foi escrite como não-binário. Isso diminuiu e rejeitou o que as pessoas viram e sentiram na jornada de Jo. Não devíamos ter feito isso.

Nós deveríamos, em vez disso, ter engajado em uma discussão aberta sobre nuances e espectros de gênero.

Nós deveríamos ter protegido e celebrado o fato de uma um público não-binário viu em Jo uma representação ousada, desafiadora, complexa e vibrante de sua comunidade.

Por tudo isso, nós lamentamos profundamente.

Como líderes desta empresa tão especial, nós deveríamos ter feito melhor e reconhecido nosso erro e suas consequências. Nós colocamos nosso elenco e fãs em uma posição difícil. Divididos entre seu amor pelo show que criamos e a dor e decepção neste tópico e com nossas palavras (e depois com nosso silêncio).

‘Jagged Little Pill’ aborda tantos tópicos: vício em ópio, adoção transracial, agressão sexual, identidade de gênero, crise matrimonial e saúde mental. Muitas vezes nos disseram que “isso é demais” – mas sempre, encorajados pelo nosso time criativo, e principalmente pela Alanis, nós continuamos.

Nós temos muito orgulho do espetáculo que fizemos e seu poder transformativo. É justamente porque nós fizemos este show sobre esses tópicos – um show sobre empatia radical e falar a verdade, sobre protesto e vulnerabilidade – que nós dissemos a nós mesmos para ter um padrão mais elevado. Nós devemos isso ao espetáculo que fizemos, as pessoas extraordinárias que fizeram conosco, e a você nosso público. Para começar este processo, nós tomamos duas medidas:

  1. Contratamos um novo time de dramaturgia (que inclui representação não-binária, transgênero e BIPOC) para rever e aprofundar o roteiro. Em particular, nós nos comprometemos claridade e integridade ao contar a história de Jo. A história de ume adolescente de gênero não-conforme que está em uma jornada aberta acerca de sua identidade de gênero e queerness.
  2. Nós instituímos práticas que intencionalmente ampliaram a escolha de todos os papeis no elenco para artistas de todas as identidades de gênero. Nós já fazemos e continuaremos a deixar isto explícito em futuras audições que Jo está em uma jornada de gênero e priorizar audições de atores neste papel que estejam nesta jornada ou entendam a experiência pessoalmente – incluindo artistas que são não-binários, gênero fluido ou gênero-expansive – ou que estejam dentro do guarda-chuva da comunidade trans.
  3. Cultivaremos uma cultura de trabalho mais participativa, responsiva, segura e equitativa, especificamente para nossa volta e nossa nova companhia com membros não-binário, trans, queer e BIPOC. Este trabalho inclui sessões para ouvir e aprender, treinamentos relacionados a transfobia e antirracismo, e contínuos caminhos para alianças mensuráveis e defesa. Para ajudar neste trabalho, nós trouxemos para o time de sênior de liderança um Diretor de Pessoas e Cultura, que irá ser uma fonte de apoio, treinamento e defesa para a companhia e equipe.
  4. Nós fechamos uma parceria com The Trevor Project e Trans Lifeline para ajudar a ampliar suas vozes e trazer a atenção necessária para o importante trabalho que eles fazem. Esses relacionamentos serão construídos com o tempo – começando com uma doação inicial – para ampliar o espectro de nossas iniciativas de políticas e arrecadação de fundos.

Nós fazemos isso para não cessar o debate acerca destas questões. Somos gratos pelas conversas críticas que continuam a acontecer. Nós damos boas-vindas a todos que seriam construtivos nesta empresa. Broadway tem muito trabalho a fazer. Nós temos muito trabalho a fazer. Estamos ansiosos para fazermos isso juntos.

Sou a Manu, carioca e descobri no teatro musical minha maior paixão. Entrei de cabeça no mundo dos bootlegs e dos pedidos incessantes de "por favor, traz a temporada pro Rio!" em comentário de foto em 2018 e, desde então, não me vejo mais longe das plateias de musicais.

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