“Maldita” transforma tragédias gregas em uma comédia hilária

Quando se pensa em tragédias gregas, logo vem à mente o drama, algo denso e pesado. Em “Maldita”, porém, essas histórias ganham um viés nada convencional: a comédia. O espetáculo propõe uma nova leitura inspirada na Trilogia Tebana, de Sófocles, que narra os mitos de Édipo Rei, Édipo em Colono e Antígona, através de uma lente marcada pela ironia, humor, exagero visual, música, paródias e memes.

Inspirado no teatro de revista, no humor do universo drag e no cabaré, “Maldita” também aposta em diversas referências à cultura pop para construir sua própria linguagem. No palco, os artistas cantam, tocam, dançam e interagem com a plateia. A energia da montagem é constante e, quando percebemos, estamos completamente imersos naquele universo, como se acompanhássemos uma novela ambientada na Grécia Antiga, de uma maneira caótica e muito divertida.

Um dos grandes acertos da montagem está justamente na maneira como ela aproxima uma história clássica do público contemporâneo. As tragédias gregas podem parecer distantes para quem não está familiarizado com seus personagens e conflitos, mas “Maldita” encontra uma linguagem acessível sem abandonar o que existe de essencial nesses mitos. O texto é fácil de acompanhar, as histórias se conectam e o humor ajuda a conduzir o público pelos acontecimentos. A montagem não exige que o espectador conheça profundamente Sófocles para se divertir e, ao mesmo tempo, permite que quem já conhece essas histórias perceba as inúmeras brincadeiras e referências espalhadas pelo espetáculo.

A força do elenco também é fundamental para que essa proposta funcione. A mistura de música, dança, interpretação e interação com a plateia exige entrega e presença de palco, e os artistas sustentam o ritmo da montagem. O resultado é um espetáculo que não deixa a energia cair e transforma até os momentos mais trágicos da história em oportunidades para provocar o riso.

O reconhecimento recebido por “Maldita” também confirma a força da montagem. A comédia musical venceu o 20º Prêmio APTR, em 2026, na categoria Direção, além de ter concorrido em Dramaturgia, Direção de Movimento e Música. Também foi indicada nas categorias Direção e Prêmio Especial para o elenco no Prêmio do Humor, de Fábio Porchat. Em 2025, foi o grande vencedor do 48º Prêmio Paschoalino (Fetaerj), com 14 indicações e seis prêmios, entre eles Melhor Espetáculo, Melhor Direção e Melhor Autor. As premiações ajudam a mostrar que a proposta de transformar um clássico da dramaturgia em uma experiência contemporânea também encontrou reconhecimento entre profissionais do teatro.

Fruto das oficinas de Montagem Teatral e Direção de Arte da Escola Popular de Teatro da Baixada, realizadas pelo Instituto Cultural Cerne, de São João de Meriti, “Maldita” reúne um elenco majoritariamente formado por artistas da comunidade LGBTQIAPN+. A dramaturgia e a direção são de Rohan Baruck, enquanto os figurinos, o cenário e o visagismo são coordenados por Higor Nery e Leandro Fazolla.

“Maldita” mostra que histórias muito conhecidas não precisam e não devem permanecer engessadas. Ao misturar os mitos gregos com referências atuais, o espetáculo encontra uma maneira muito particular de contar a saga de Édipo e sua família para um público que talvez nunca imaginasse se divertir com as tragédias de Sófocles. Mais do que simplesmente transformar tragédia em comédia, “Maldita” mostra que um clássico pode ser revisitado, subvertido e reinventado sem perder a sua potência.

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