O Motociclista no Globo da Morte: a violência que não precisa ser mostrada

Uma cadeira e um copo d’água. É somente isso que Eduardo Moscovis precisa para entregar uma das performances mais fortes e impactantes do Festival de Teatro do Rio. O espetáculo O Motociclista no Globo da Morte, que estreou oficialmente em setembro de 2025, integrou a programação do festival nos dias 5 e 6 de agosto, no Teatro TotalEnergies.

O monólogo, estrelado por Eduardo Moscovis, com texto de Leonardo Netto e direção de Rodrigo Portella, investiga a origem, a repulsa e, principalmente, a banalização da violência na sociedade. Moscovis interpreta Antônio, um matemático pacato, aparentemente distante de qualquer comportamento violento e com aversão a esse tipo de manifestação. Até que um acontecimento brutal muda completamente seu destino. Em uma tarde que deveria ser apenas mais um dia comum, Antônio se vê diante de uma espiral de violência que transforma não apenas sua vida, mas também a maneira como se coloca no mundo.

A direção precisa de Rodrigo Portella parece partir justamente do desconforto. Eduardo Moscovis entra em cena e permanece longos minutos sentado, em silêncio, encarando uma plateia que, naturalmente, espera que alguma coisa aconteça. O silêncio, porém, já é parte do acontecimento. Antes mesmo de Antônio começar a falar, o espectador é colocado em uma posição desconfortável: somos obrigados a olhar para ele sem saber exatamente o que está por vir.

Quando finalmente começa a contar sua história, Moscovis faz da palavra seu principal recurso cênico. Não há grandes cenários, efeitos especiais ou imagens que ilustrem aquilo que está sendo narrado. E é justamente aí que a encenação encontra sua maior força. Ao não mostrar a violência, o espetáculo obriga o público a imaginá-la. E, muitas vezes, a imaginação consegue ser muito mais perturbadora do que qualquer imagem poderia ser. O horror não está no palco; ele é construído dentro da cabeça de quem assiste. A cadeira, o copo d’água, o corpo do ator e sua voz são suficientes para criar imagens de uma brutalidade que nunca precisamos efetivamente enxergar.

A atuação de Moscovis não depende de grandes gestos ou de uma transformação física evidente para transmitir o impacto daquilo que Antônio viveu. O ator trabalha principalmente com a presença, com o silêncio, com o olhar e com as diferentes camadas de sua narrativa. Há momentos em que parece conversar diretamente com cada pessoa da plateia e outros em que a própria maneira como conta os acontecimentos produz uma sensação incômoda de proximidade. E esse incômodo é fundamental para o espetáculo.

Depois de descrever cenas de verdadeira barbárie, Antônio afirma que existem pessoas naquela própria plateia que concordam com o que foi feito. A frase desloca a violência do lugar confortável de algo que acontece “lá fora” e obriga o espectador a se incluir na discussão. Não se trata mais apenas de observar um personagem diante de uma situação extrema, mas de questionar até onde vão nossas próprias convicções quando somos colocados diante da violência.

A dramaturgia de Leonardo Netto amplia essa provocação ao colocar lado a lado diferentes episódios de guerras, chacinas e manifestações de violência ao longo da história da humanidade. O que poderia ser apenas uma sucessão de acontecimentos brutais ganha outra dimensão: a percepção de que a humanidade convive com a violência há tanto tempo que, em determinados contextos, ela parece ter deixado de causar espanto, se tornou algo banal.

É nesse ponto que O Motociclista no Globo da Morte deixa de ser apenas uma história sobre um homem e passa a discutir algo muito maior. A peça fala sobre a facilidade com que a violência pode ser normalizada, justificada e reproduzida. Fala sobre a fragilidade da vida, mas também sobre a nossa capacidade de nos acostumarmos com aquilo que deveria continuar nos chocando.

Quando o espetáculo termina, a sensação não é exatamente de alívio. O público deixa o teatro meio em choque, meio desconfortável, talvez tentando organizar tudo aquilo que acabou de ouvir. E talvez essa seja justamente a intenção.

O Motociclista no Globo da Morte não é um espetáculo fácil de assistir. Pode provocar desconforto, medo e até gatilhos em quem assiste. Mas é justamente por isso que sua existência se torna tão necessária. Em uma sociedade constantemente exposta a imagens de violência, mortes e brutalidade, talvez seja preciso, de vez em quando, retirar essas imagens da nossa frente e fazer com que elas existam apenas na nossa imaginação. Porque, quando somos obrigados a imaginar o horror em vez de simplesmente consumi-lo como mais uma imagem, talvez finalmente sejamos capazes de perceber o quanto já nos acostumamos com ele.

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