
Titanic é um dos maiores clássicos do cinema mundial. A história de amor de Jack e Rose, que termina em tragédia, ainda emociona muita gente. Quando pensamos em Titanic, comédia é provavelmente a última coisa que nos vem à mente. Subverter essa expectativa é um dos grandes trunfos de Titanique.
Titanique é uma comédia embalada pelos maiores hits de Céline Dion. Em cena, Alessandra Maestrini encarna a diva que narra a trama que todos nós conhecemos de um jeito nunca antes visto. Não é à toa que Alessandra é um dos grandes nomes do teatro musical brasileiro. Ela toma conta da cena, com carisma, presença e completo domínio das engrenagens que fazem a história acontecer. Alessandra é o fio condutor desse concerto caótico, conduzindo um elenco afiado com excelência e precisão.
O elenco de Titanique também merece destaque. Giulia Nadruz vive Rose, que oscila entre a adolescente birrenta que não quer fazer as vontades da mãe e a jovem corajosa, disposta a ouvir seu coração. Giulia entende o tom de cada momento da história e nos faz torcer por sua liberdade, ao mesmo tempo que provoca gargalhadas com suas reações e sua maneira de enfrentar os obstáculos. Assim como todo o elenco, Giulia demonstra se divertir em cena, e essa entrega contagia a plateia. É um prazer vê-la tão à vontade em uma comédia que exige tanto de seu talento cômico.
Marcos Veras dá vida a Jack, um malandro sonhador que se encanta pela mocinha e a faz rever tudo o que acreditava ser o certo para sua vida. Veras faz de seu Jack um mocinho cativante. Giulia e Marcos esbanjam química e formam um casal hilário e adorável.
Luis Lobianco é Ruth, mãe de Rose, que a mantém em rédea curta e faz de tudo para que a filha se case com um homem rico. O ator, por si só, já é um espetáculo. Com uma peruca enorme e uma pomba na cabeça, ele torna impossível não rir de sua madame falida, que faz de tudo para se dar bem, inclusive puxar o saco de quem quer que seja. Luis demonstra total domínio da cena e, com seu excelente timing cômico, torna Ruth irresistível. Nas interações com a plateia, nas piadas e nos bordões, o ator se torna peça fundamental para que Titanique seja uma comédia memorável.
George Sauma dá vida a Cal, noivo de Rose. Mimado, arrogante, afetadíssimo e incapaz de aceitar uma derrota, o personagem poderia facilmente despertar antipatia, mas George transforma seus excessos em combustível para a comédia. Seu timing cômico faz toda a diferença na construção de um personagem que diverte justamente por suas próprias limitações.
Talita Real vive Molly Brown, personagem que faz de tudo pelo luxo e pela ostentação e adora opinar sobre a vida alheia. Molly também quer ser o centro das atenções e encontra em cena seus momentos para brilhar.
Tauã Delmiro é outro grande acerto do elenco. Carismático e envolvente, ele dá vida ao marinheiro que ajuda Céline a contar a história. Sua atuação contribui para o ritmo cômico e ganha destaque em momentos importantes do enredo.
Os demais integrantes do elenco também ajudam a sustentar a comédia. Wendell Bendelack vive o megalomaníaco capitão Victor Garber, que vai da aparente tranquilidade à completa loucura quando as coisas começam a dar errado no navio. Luiza Lapa, Luan Carvalho e Marcos Lanza vivem os passageiros e complementam lindamente o espetáculo. Cada um tem seus momentos de destaque e aproveita suas oportunidades em cena para brilhar. Valéria Barcelos também dá vida ao iceberg, grande catalisador da história. Vestida de Tina Turner, ela é um verdadeiro furacão em cena e mexe literalmente com a vida de todos os personagens.
Com direção artística de Gustavo Barchilon e direção de produção de Thiago Hofman, Titanique subverte as expectativas de quem chega ao teatro esperando encontrar a história clássica de Titanic. O resultado é uma comédia nonsense, de besteirol escrachado, repleta de referências à cultura pop, à cultura brasileira e ao universo dos musicais. A direção musical de Thiago Gimenes, o desenho de luz de Maneco Quinderé, a direção de movimento de Alonso Barros, o figurino de Theo Cochrane, a cenografia de Natália Lana e o visagismo de Feliciano San Roman contribuem para uma montagem que abraça o absurdo e transforma o caos em diversão.
A temporada carioca de Titanique vai até 7 de novembro, no Teatro Claro Mais. Em meio a um cenário político caótico e difícil, encontrar no teatro um espaço para rir também é necessário. Mais do que oferecer uma pausa na realidade, o espetáculo nos lembra da importância de preservar o humor mesmo diante de tempos tão desgastantes. Talvez seja por isso que Titanique seja o musical que o Rio de Janeiro precisava.


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