OCTET é um espelho do nosso cansaço digital

Quando soube, ainda este mês, que Octet vai ganhar uma adaptação cinematográfica, senti um misto de entusiasmo e medo, daqueles que só parcerias improváveis, mas perfeitas, conseguem provocar. De um lado, a mente labiríntica de Dave Malloy, responsável por Natasha, Pierre e o Grande Cometa de 1812; do outro, a sensibilidade pop e cinematográfica de Lin-Manuel Miranda, que dispensa apresentações.

Mas, mais do que a empolgação inicial, veio a curiosidade.

Fui atrás. Fui ouvir, pesquisar, tentar entender o que exatamente era Octet e, principalmente, o que fazia essa obra não sair da cabeça do próprio Miranda.

Em suas próprias palavras: “Não parei de pensar em Octet desde que vi a produção original em 2019. A trilha de Dave Malloy é versátil, brilhante e se torna mais relevante a cada ano. Não me deixa em paz, então aqui estamos”.

E, depois de mergulhar nesse universo, eu entendi exatamente o porquê.

A primeira coisa que você precisa entender sobre Octet é que ele não é um musical comum. É uma “ópera de câmara” inteiramente a cappella. Não há orquestra, banda ou sintetizadores.

A obra estreou em 2019 no Signature Theatre e acompanha oito personagens em um grupo de apoio para viciados em internet.

Como qualquer pessoa que já se pegou rolando o feed às três da manhã, sentindo o brilho azul do celular queimar os olhos enquanto o resto do mundo dorme, eu sabia que precisava de algo que desse nome a esse vazio. E aqui, ao contrário dos grandes espetáculos da Broadway cheios de luzes e sintetizadores, o que ouvi foi o som mais cru, vulnerável e analógico que existe: a voz humana, sem filtros.

Octet é um espelho.

O que mais me dói e fascina em Octet é a metáfora da “Floresta”. Na canção de abertura, a floresta é um estado mental: um lugar de silêncio, de conexão real, de pureza pré-internet. Mas, conforme avançamos pelas histórias de cancelamentos, jogos obsessivos e doomscrolling, percebemos que essa floresta está poluída.

Nossa mente virou um terreno baldio de notificações. O musical nos faz questionar: ainda resta algum espaço dentro de nós que não foi dominado pelos algoritmos?

A genialidade da obra está em como ela traduz a internet para o som. Malloy foge do estilo “bonitinho” de Pitch Perfect e mergulha em cantos guturais, harmonias complexas do Leste Europeu e até referências pop caóticas, como o clássico “rickroll”. É uma cacofonia que simula perfeitamente o barulho das nossas abas abertas no navegador, mas feita inteiramente por nós. E nos faz lembrar que, por trás de cada perfil, de cada comentário de ódio ou de cada “curtida”, existe uma pessoa tentando, desesperadamente, ser vista.

Agora que Lin-Manuel Miranda assumiu a missão de levar essa história para o cinema, minha expectativa é de um “banho de realidade” visual. Se, no palco, o som das vozes já nos deixa sem ar, nas telas poderemos ver de perto a fragilidade de oito seres humanos tentando se reconectar com o que é real.

Octet é uma obra que nos pede para tirar os fones de ouvido, fechar a aba e, por um momento, ouvir o silêncio, ou melhor, ouvir uns aos outros.

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