“O Deus da Carnificina” é uma ode à hipocrisia e à barbárie

O que acontece quando ninguém dá o braço a torcer? É essa a pergunta que “O Deus da Carnificina” se propõe a responder. Durante 90 minutos, o espetáculo acompanha o encontro de dois casais que tentam chegar a um entendimento após um caso de agressão entre seus filhos.

O encontro começa de forma cordial e elegante. Porém, conforme a história se desenrola, os dois casais expõem toda a raiva e o egoísmo despertados pela situação. O que deveria ser um diálogo civilizado transforma-se em trocas de ofensas, demonstrações de infantilidade e agressões, revelando o quanto é difícil se colocar no lugar do outro e trazendo à tona aquilo que o ser humano mais tenta esconder. Nenhum lado consegue enxergar os erros do próprio filho, nem as consequências de suas atitudes na vida da outra criança. 

“O Deus da Carnificina” é um texto de sucesso da premiada autora francesa Yasmina Reza, sob a direção de Rodrigo Portella, e reúne no elenco Ângelo Paes Leme, Karine Teles, Thelmo Fernandes e Anna Sophia Folch.

A cenografia enxuta, quase crua, parece contribuir para colocar ainda mais em evidência a força e a potência dos quatro atores em cena. Karine Teles é grandiosa na transição de sua personagem, que passa de uma mulher educada e elegante, no início da peça, a uma figura arrogante e quase selvagem ao final. Thelmo Fernandes oscila brilhantemente entre a comédia e a fúria ao longo da história. Já Ângelo Paes Leme desperta a antipatia do público por meio do cinismo e da dureza de seu personagem. Anna Sophia Folch, por sua vez, desconstrói com precisão a imagem de pureza e inocência apresentada no início do espetáculo.

Mesmo sendo um espetáculo que não dá respostas fáceis, tudo em “O Deus da Carnificina” parece ter algo a dizer. O figurino, com roupas formais e cabelos presos de maneira quase milimétrica, vai se desfazendo ao longo da história, acompanhando a deterioração da fachada civilizada dos personagens. A ausência de um grande cenário também contribui para direcionar toda a atenção do público ao que acontece entre os quatro em cena. A grama sintética sugere que tudo ali é artificial, reforçando a ideia de relações construídas sobre aparências. Por fim, o carrinho de picolé chama a atenção por aparentemente destoar da narrativa, mas revela-se um símbolo da infantilidade que habita cada personagem, o que mostra como a quebra de algo mais sofisticado expõe impulsos e comportamentos que tentamos esconder.

“O Deus da Carnificina” não é um espetáculo fácil de assistir, pois obriga o espectador a se enxergar em cena. A peça evidencia como o ser humano pode ser egoísta, infantil, autocentrado e hipócrita, mostrando que basta um mínimo gatilho para que tudo isso venha à tona, sem qualquer traço de polidez. Seu desfecho retrata de forma contundente como a falta de diálogo e de empatia é nociva, conduzindo os indivíduos a um impasse do qual ninguém realmente sai vencedor.

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