
O mundo está de ponta-cabeça, isto é fato, e nada como o teatro para nos fazer rir em meio à tragédia. Tal qual os violinistas em “Titanic”, que tocam enquanto o navio afunda para trazer um pouco de poesia e arte em meio ao desespero, o espetáculo “Cão” tem basicamente a mesma premissa.
O espetáculo, que é uma colaboração entre os grupos de teatro Clowns de Shakespeare (RN) e Magiluth (PE), nasceu de uma pesquisa sobre o Brasil contemporâneo, suas contradições, afetos e resistências, com foco no trabalho precário em suas diversas vertentes.
Durante pouco mais de duas horas, vemos um grupo de trabalhadores de eventos, nas mais diversas funções, mestres de cerimônia, técnicos de som e luz, cenógrafos, produtores, seguranças e por aí vai. Todos se preparam para uma grande cerimônia de posse um tanto quanto excêntrica, mas de extrema relevância. Tudo que envolve esse evento é caótico, hilário, performático e brutal. “Cão” é o tipo de espetáculo em que o público não pode piscar, pois a cada segundo, milhares de coisas acontecem ao mesmo tempo.
Magiluth e Clowns de Shakespeare são duas companhias extremamente potentes em suas produções. Quando se unem, é uma verdadeira explosão de talento e qualidade artística. Não há um elemento que se destaque separadamente, todo o elenco brilha em pé de igualdade. Todos são magnéticos, e nos dão a sensação de que precisamos olhar para todos ao mesmo tempo. Até o moço do café, que a princípio, não tem muito texto, é um espetáculo à parte de se assistir. O que é dificílimo quando há várias pessoas tão marcantes em cena.
Além da qualidade dos artistas, é importante mencionar o texto preciso de “Cão”. É o tipo de dramaturgia que nos faz ter certeza de que aquele texto precisava existir. É político, crítico, ácido, e o grande diferencial: tem o humor que só o Nordeste brasileiro é capaz de produzir. No corpo, na voz, nos trejeitos, nas perucas, nas músicas, nos figurinos, uma certa crueza cênica que grita Brasil.
Abordar a exploração do trabalhador no Brasil contemporâneo, na América Latina e no mundo, parece uma provocação, e é. Mas vem embalada por várias outras camadas, inclusive de Shakespeare, que acaba sendo todo o fio condutor dessa história rocambolesca.
“Cão” é o tipo de espetáculo que nos inebria, eletriza. Que, por duas horas, nos faz rir da tragédia que o mundo virou, porque é a única coisa que nos resta. Escancara nossas contradições, misérias, hipocrisias e a nossa humanidade até a última gota. O tipo de história em que é impossível simplesmente ir embora quando acaba, a gente precisa falar a respeito.
“Cão” é a explicação personificada de por que o teatro existe: nos distanciar da realidade e ao mesmo tempo, nos levar para dentro dela. Tudo isso de um jeito fantástico, exagerado, circense.
Transformar o caos em comédia não é tarefa fácil. Fazer isso com críticas profundas sobre temas espinhosos é mais difícil ainda. Mas “Cão” é a prova de que a junção de artistas corajosos e competentes torna tudo possível. É a essência mais pura do teatro. Nada se faz sozinho.
“Cão” fica em cartaz até 15 de março no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB – RJ), Rua Primeiro de Março, nº 66, Candelária – Centro – Rio de Janeiro. Dias e Horários: De 5ª feira a sábado, às 19h; domingo, às 18h.


Deixe um Comentário