Musicais: o mundo como um só

Em 2014, conversando com um grupo de colegas de sala da minha escola, eu disse em voz alta que acreditava que o futuro traria uma hegemonia cultural, e o ápice da globalização seria claro quando o mundo atingisse essa pangeia sonora, literária e visual (com certeza não com essas palavras).

Uma das alunas se virou para mim com uma expressão que eu guardo na minha memória até hoje, como se finalmente alguém tivesse captado algo que ela já tinha percebido, e disse que concordava comigo. Dedico este texto a ela, pois quero explorar se estávamos corretos e, principalmente, como isso é visível dentro do teatro musical.

A ideia de hegemonia cultural não é nova. Na verdade, sempre foi um projeto pregado ao longo da história, com a expansão da Igreja Católica, o movimento Bauhaus, as marcas de Hollywood, e muitas outras tentativas de solidificar uma “única cultura humana”, que representasse todos os sapiens do planeta.

Para mim, ela se manifestou com a internet. É impossível negar que esse avanço tecnológico foi o grande pontapé para uma estranha concretização desse ideal de um mundo conectado, vivendo como um só. A facilidade de propagação de arte criou uma fomentação artística de diversos olhares, diversas experiências, de lugares tão distantes e às vezes tão próximos, mas diferentes. O que criou esse vínculo entre públicos distintos não foi o que eles consumiam, mas suas criações e as exposições de sua criatividade. 

Bem, essa autoralidade perdeu a longevidade prometida quando as corporações começaram a se aproveitar dessa conexão. A explosão da música pop e dos filmes blockbuster alavancou essa cultura unificada a algo cada vez mais artificial, e estranhamente, mais “natural”, como se fosse parte da vida cotidiana desde sempre.

Astros da música e do audiovisual sendo reconhecidas mundialmente, mas fazendo parte do todo, com um efeito extremo de parassocialidade, que é intensificado pela multiplicação de subcelebridades procurando chegar ao topo do distanciamento do público mundano, mas acabando por preencher um abismo entre os dois.

Porém, uma forma de arte ainda se mantinha como que parada no tempo, congelada, fora dos radares comerciais: o teatro.

O teatro, com a modernização das formas de contar histórias, foi se tornando um com a ópera, a orquestra: meios de arte vistos como tradicionais. Relíquias. Quando um ator renomado no cinema partia para uma experiência nos palcos, era visto como um movimento quase auto-isolador.

Porém, o teatro tem um familiar popular, brilhando sempre nas telas enormes do cinema: o teatro musical. Por um certo período, ele foi considerado o esquisito da família, aquele que se afasta tanto dos outros que cria seu próprio núcleo. E é difícil apontar o que exatamente furou a sua bolha, mas talvez tenha sido a sua facilidade em dialogar com outras linguagens. Um exemplo é o filme Moulin Rouge, que celebra músicas populares com visuais primorosos da arte cinematográfica, mesmo sendo uma obra intensamente enraizada no teatro musical. 

Nesses anos, virei muito fã da obra Cabaret, gostando muito de sua versão cinematográfica, mas ainda mais de sua versão teatral. Observar seu revival, quase que acompanhando de perto, foi o que me inspirou a escrever esse texto. Observar como o teatro musical, e seus textos mais famosos e influentes, estão sendo revisitados dentro dessa cultura hegemônica que criamos, separados de seu nicho, visando atingir novos olhares.

Esse fenômeno não é exclusivamente ruim: ele nos traz mais abertura a outras abordagens e culturas, como a versão de Cats em estilo ballroom, que aproveitou desse canvas criado pela intenção de espalhar essa linguagem artística além do seu nicho teatral, e apresentar uma cultura que muitos ainda não tiveram contato.

Mas um detalhe inescapável desse fenômeno é uma perda parcial de identidade. Cabaret tem uma estética específica, referente à transição entre as décadas de 1920 e 1930, espelhando a ascensão do Nazismo em Berlim pela ótica da vida noturna e de seus cidadãos às margens. Porém, as versões mais recentes apostam num visual abstrato, que consequentemente se afasta do período histórico e tenta trazer a mensagem para um espelho atual. É uma decisão artística interessante e válida, mas gera questionamentos sobre essa perda estilística sem apresentação de uma identidade própria.

Além de Cabaret, esse movimento pode ser visto também nos musicais de sucesso mais recentes: Wicked, Hadestown, Epic, Beetlejuice… Existe algo em comum em todos eles: são todos obras fantásticas. São obras que saem da realidade individual para uma narrativa mais geral, como amizade e traição, a busca por um amor, a vontade de voltar para casa, o terror do sobrenatural. São valores que podem ser compartilhados com qualquer pessoa do planeta, e isso é belo.

Porém, não deve ser visto como uma régua a ser passada por todas as obras. Minha profecia de 2014 não levava em consideração a crescente exigência por individualidade, a necessidade de termos tantas obras pessoais. O retorno do público a espaços mais underground é notável, pois há uma súplica por uma identidade mais concreta e especial. A substância individual também não é uma oposição, afinal, ela não anula que os sentimentos presentes sejam tão universais como em outro modelo, apenas dentro de um contexto a ser entendido.

É importante haver um olhar que todos participemos, mas mais importante, é haver diferenças em que possamos compartilhar.

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